Talvez seja improvável que alguém consiga assistir ao documentário “Matter of Time“, do Eddie Vedder, disponível na Netflix desde 9 de fevereiro de 2026, sem derramar uma única lágrima.
E, para isso, a produção não precisou dramatizar ou forçar a emoção no público em troca da sensibilização por uma causa. Bastou mostrar, de forma absolutamente simples e direta, a rotina de pessoas, sobretudo crianças, que convivem com uma doença rara naturalmente cruel: a Epidermólise Bolhosa, conhecida como doença da borboleta.
O que é Epidermólise Bolhosa
A EB é uma condição genética em que a pele não se mantém no lugar. Ela se solta, formando feridas crônicas que dificilmente cicatrizam. A rotina dessas pessoas é trocar curativos por horas. Um processo que, geralmente, começa no banho e é sempre acompanhada de dor intensa. Até o momento, não há cura e sequer existe um tratamento que amenize o sofrimento de forma significativa.
E algo que fica nas entrelinhas do filme, subentendido para quem assiste com atenção, é também a realidade do abandono de crianças com doenças raras.
Por que o Eddie Vedder está nesse documentário?

Há quase 20 anos, Jill Vedder soube que o filho de uma amiga de infância tinha essa doença. Como a esmagadora maioria das pessoas no mundo, ela nunca tinha ouvido falar em Epidermólise Bolhosa. Jill ficou profundamente tocada, sobretudo ao descobrir que faltava investimento em pesquisas.
Foi nesse momento que ela e o Eddie abraçaram a causa e fundaram, em 2010, a EB Research Partnership, uma organização para arrecadar fundos e encontrar a cura para esta doença.
Ao longo da primeira década da organização, referida no filme, eles foram do zero à descoberta de um medicamento que oferece uma pequena melhora na pele de alguns pacientes.
Mas, talvez mais importante do que isso, a instituição deu a todos os envolvidos a esperança de que, um dia, a cura pode ser encontrada. De que há especialistas sendo financiados por uma comunidade global disposta a chegar no mesmo destino.
Pearl Jam, comunidade e EB
E é aqui que mora a beleza deste documentário: a formação de uma comunidade replica algo que o Eddie Vedder já conhecia muito bem em sua carreira com o Pearl Jam.
Os integrantes do Pearl Jam sempre abraçaram causas e são conhecidos por suas formas de pensar social e justa, construindo ao longo de décadas uma comunidade de fãs engajada e consciente a partir da música.
O Eddie estendeu essa influência para dar luz a um tema desconhecido pela esmagadora maioria das pessoas, sobretudo fãs, e os conectou para apoiarem essa causa junto com ele.
Em paralelo, a organização colocou famílias, pessoas com a doença e médicos em contato com pesquisadores, criando um espaço de troca verdadeiro, onde a esperança é palpável e física.
O show de Eddie Vedder em Seattle mostrado no filme

Todo o documentário é intercalado por um show beneficente de 2023 que o Eddie fez no Benaroya Hall, uma sala histórica de Seattle, a terra do Pearl Jam. Nesse show, a comunidade está representada na plateia com pacientes, famílias, pesquisadores, médicos, fãs e doadores.
E, entre as músicas, Eddie usa de sua espontaneidade para falar das pessoas e do quanto esse assunto o toca pessoalmente. Há poucas falas dele fora do palco ao longo do documentário. Mas, para quem o acompanha há muito tempo, fica claro: apesar de ser um excelente letrista, que mostra ter um coração tão profundo e visceral, ele é bastante reservado ao falar com grande público.
É uma escolha genial intercalar um tema tão complexo e doloroso com imagens de shows que emocionam. No setlist, vemos versões interessantes e acústicas para “Wishlist”, “Elderly Woman”, “Just Breathe”, “Better Man” e “River Cross”, entre outras músicas do Pearl Jam, de sua carreira solo e covers.
Ver o Eddie Vedder visivelmente emocionado no palco, segurando ou deixando cair as lágrimas, impacta todo mundo. Ele sempre transbordou suas emoções, e isso é uma das coisas que mais admiro nele. É um sujeito verdadeiro, cru. Tudo que ele mostra no palco, e não é diferente neste show beneficente, ultrapassa técnica ou ensaio. A graça, o brilho do Eddie, o que inspira os fãs é essa vulnerabilidade que ele mostra de forma sempre tão intensa, tão despida e também tão dolorosa.
Destaques de “Matter of Time”

As histórias dos pacientes são realmente muito envolventes. Ao final do filme, temos a sensação de que todos eles começam a fazer parte da nossa vida. Queremos saber se estão bem, se podemos fazer algo para apoiá-los.
Conhecemos Deanna Molinaro, por exemplo, uma artista de 31 anos com enorme brilho nos olhos que, na infância, sequer tinha ataduras adequadas para aliviar as dores dessa doença.
Ela conecta diversas partes do filme, exemplificando sua rotina, reflexões, adaptações inimagináveis para quem não conhece a realidade dessa condição e também é uma ponte de conexão entre gerações, quando vemos um encontro bonito dela com Rowan Holler, uma garotinha de 8 anos, também com EB, e entregando uma de suas obras como um presente para Eddie e Jill.
E, então, descobrimos que a Deanna faleceu duas semanas depois das gravações. A realidade dura dessa doença que sequer precisa ser dramatizada, como comentei no início do texto, porque ela já é cruel por si só.
Entre tantos outros pacientes envolvidos no documentário, também me emocionou conhecer Garrett Spaulding, que aos 27 anos autorizou a retirada de um pedaço de sua pele para um tratamento experimental, com plena consciência do quanto sofreu ao longo da vida, e pensando que esse esforço tão doloroso pode beneficiar as futuras gerações.
Eu assisti ao documentário pela manhã e passei o resto do dia impactada. Chorar de emoção pesa e, por isso, também transforma.
Para quem sabe o poder transformador da música ao vivo, “Matter of Time” é um lembrete do quanto a música é uma ponte poderosa. Ponte entre pessoas, entre dor e esperança, entre o invisível e o urgente.
Ainda vemos aquela magia de Seattle, o peso da história do Benaroya Hall e o Eddie Vedder fazendo o que sempre fez de melhor: ser porta-voz de quem precisa ser ouvido.
Rota do Rock em Seattle, EUA ♫
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